
Ela sabe que toda a agonia de voltar e a certeza de que irá encarar todo seu passado, ou parte dele...que agora encontra-se esquecido.
Quando não existe mais remédio, a saída é trocar o emocional pelo racional, e quando o racional vê que chegamos no limite de nós mesmos, nos deparamos com a única opção, apagar da memória, e transformar os fatos em passado morto e interrado.
Acontece que ela ainda não sabe ser só razão, e a emoção mesmo que lá no fundo, grita mais forte e as lembranças começam a pulsar, como se cada lágrima pudesse contar, cada fato, cada pessoa que estivera ali nessa época vivida e que agora é o ontem a ser esquecido.
Na porta do bar, a espera do marido, ela escuta uma canção antiga, que a faz fechar os olhos e sentir o cheiro daquela época, e assim ela pode ver, com outros olhos a verdade daquele momento...Como era pura aquela menina, risonha e leve, por onde passava, reluzia a virgem juventude, da esperança ainda intácta, dos belos olhos que só veêm a bondade, dos passos tranquilos que ainda não viram o cansaço de uma longa caminhada...
Ela abriu os olhos e uma lágrima caiu...seria a saudade desse tempo que não voltará? Seria a magoa de ver no que tudo aquilo se transformou? A lágrima de quem vê a pureza da própria alma, e se amarga em saber que nada mais será visto com tanta beleza...É fácil pra ela ter este tipo de lembrança, pois o passado vive como fantasma, rondando sua casa e batendo na porta dia sim, dia não...mas ela tbm aprendeu a tampar os ouvidos e não escutar a batida na porta...pois ela sabe que é o passado tentando amedrontar, o passado que a deixa fraca e sensível, o passado que a lembra da antiga menina, que hoje enxerga o mundo com outros olhos...
A porta do carro se abre, e o marido liga o carro...então ela se dá conta de que está na hora de ir embora, a música acabou, e o passado, não pode a amedrontar.- Só me lembrarei do que foi bom, pra não me esquecer de quem eu fui, e de quem eu sou...Respire fundo menina. Esqueça esse passado e atenda a porta....é o futuro chamando.